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O carpinteiro de cartão e a empreendedora verde

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Ele é arquiteto, um ás em desenho e geometria descritiva, que em criança aspirava ser carpinteiro e construía os próprios brinquedos. Ela estudou enologia, já trabalhou em turismo, tem um talento especial para os trabalhos manuais, anseia pelo equilíbrio social e diz que vê o mundo em tons de verde. Unidos pelo cupido, Filipa Carrêtas e Jorge Sá casaram talentos e convicções num projeto criativo e sustentável, que se dedica à construção de mobiliário e adereços decorativos, a partir da reutilização de desperdícios de cartão. Candeeiros, mesas, estantes e bengaleiros são algumas surpreendentes propostas com assinatura mo.ca. – mobiliário de cartão. 

“A construção é essencialmente artesanal e todas as peças são feitas à medida do cliente. No fundo, o mo.ca.-mobiliário de cartão é um projeto de “carpintaria” em cartão, personalizada, moderna e, acima de tudo, consciente”, afirma Filipa Carrêtas. Acabar com a ideia de que o cartão é um “material fraco, pouco resistente e pouco nobre” é o desafio maior deste projeto, reconhece também a empreendedora, que contraria preconceitos argumentando, desde logo, que as peças mo.ca. “são mutáveis, leves e altamente resistentes”. 
 
Desafio igualmente espinhoso é o do “consumo sustentável”, o qual, lembra Filipa Carrêtas, rivaliza cada vez mais com “o conceito inconsciente do low cost”. “Como sabemos, a sustentabilidade é poupada, mas não barata”, complementa a enóloga de formação. Por isso, o projeto mo.ca. define como target “todos os aqueles que optam pelo consumo sustentado, pelo respeito da natureza, pelos materiais e pela mão de obra”. 
 
Chegamos assim a um terceiro desafio: a valorização da mão de obra. Jorge Sá lembra que o “trabalho do mo.ca. é essencialmente artesanal”, beneficiando por isso de amplas potencialidades de customização, bem como de múltiplas garantias: qualidade de confeção, singularidade e exclusividade. Garantias essas que são um trunfo relativamente à concorrência da indústria, mas que, pela escassa valorização do mercado, não são, por ora, suficientes para constituírem efetivos fatores de competitividade.
 

Primeiro projeto apoiado por uma plataforma de crowdfunding em Portugal

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De desafio em desafio, Filipa Carrêtas e Jorge Sá não conseguiram ainda constituir a empresa formalmente. Dificuldades que o dinamismo de ambos e a originalidade do projeto não permitirão, certamente, que se prolonguem no tempo. Prova disso mesmo foi o sucesso do projeto mo.ca. na Massivemov, a plataforma de Crowdfunding, que acompanha e divulga projetos criativos. “Fomos os primeiros a conseguir apoio, na primeira plataforma de crowdfunding nacional”, lembram. Tudo aconteceu quase que por acaso, por sugestão de um amigo, mas o que é certo é que, após cinco dias de permanência na plataforma, conseguiram 82% do apoio pedido. 

“Nessa mesma semana, procuramos e encontramos o nosso local de trabalho (o Lófte, espaço para projetos criativos, instalado na cidade do Porto) e nunca mais largarmos o cartão”, recorda com entusiamo Jorge Sá. Desde então têm vindo a estabelecer parcerias com empresas – como a Viarco ou a F3M - Soluções em Tecnologia – e a concentrar esforços “na divulgação e na aprendizagem de técnicas de marketing, venda e negócio”, confessa também o empreendedor. 
 
“Nenhum de nós é da área ‘business’. Andamos a ler livros e vamos a workshops e palestras para conseguirmos perceber como chegar ao consumidor, como consolidar o mo.ca. - mobiliário de cartão”, confessa Filipa Carrêtas. Ainda assim, a face feminina deste projeto diz ter sido “educada para o empreendedorismo”, facto que já motivara a criação do seu próprio emprego, com um projeto na área do ambiente e da alimentação saudável. 
 
Ambos na casa dos 30, Jorge e Filipa defendem que os empreendedores devem ser  “hiperativos”, dizem acreditar na criatividade, ainda que não simpatizem com o conceito de “indústrias criativas”, e destacam a importância de associações como a ANJE. Porquê? Pelo apoio institucional, mas também pela utilidade que têm retirado de todas as “formações, dicas e notícias que têm vindo a desenvolver e apresentar no site e nas redes sociais”. Desta feita, enquanto protagonistas desses conteúdos, assumem eles próprios o papel de catalisadores do empreendedorismo. Uma missão bem entregue, não fossem eles artífices do papel. 
 
02.10.2012