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Negócio de laboratório

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Avaliar o potencial terapêutico de novos fármacos para o tratamento de doenças psiquiátricas e neurológicas é o propósito da Bn’ML – Behavioral & Molecular Lab, spin-off da Universidade do Minho cuja solução pode poupar milhões às farmacêuticas de todo o mundo. Liderada por cinco jovens cientistas, a empresa otimiza o processo de compostos terapêuticos, assegurando um teste prévio em animais de laboratório. Um exemplo de inovação tecnológica que vai de encontro a duas oportunidades concretas: por um lado, o número crescente de pessoas com depressão e perturbações de ansiedade (20% da população ativa mundial, 38% no caso europeu) e, por outro, o facto de apenas um número muito reduzido dos pacientes apresentar remissão total da sintomatologia após o tratamento. 
 
De acordo com Patrícia Patrício, cofundadora do projeto, “estima-se que apenas cerca de metade dos pacientes com depressão nos sete maiores mercados mundiais (EUA, Japão, França, Alemanha, Itália, Espanha e Reino Unido) sejam diagnosticados e que desses apenas uma pequena parte receba tratamento. Além disto, cerca de um terço dos pacientes medicados apresenta resistência ao tratamento, ou seja, ainda não possuímos tratamentos que sejam 100% eficazes na remissão desta doença”. “Isto revela-nos um cenário de premência no que respeita à necessidade de desenvolvimento de novos fármacos e implica que as farmacêuticas estejam dispostas a investir em larga escala neste problema de magnitude mundial”, acrescenta a empreendedora. 
 
Composta por investigadores e médicos que desenvolvem trabalho científico há já vários anos na área da neurobiologia das doenças psiquiátricas e neurodegenerativas, a BN’ML nasce, precisamente, da perceção desta realidade. “A ideia deste projeto surgiu há cerca de três ou quatro anos, tendo-se tornado mais real aquando do contacto por empresas farmacêuticas em congressos de neurociências, no sentido de prestar este tipo de serviços. A partir daí foi uma questão de tempo até percebermos de que forma poderíamos utilizar o know-how e experiência adquiridas nesta área e aplicá-las ao processo de desenvolvimento de fármacos de uma forma útil e com potencial de negócio”, recorda Patrícia Patrício. 
 
“Para contextualizar o projeto empresarial Bn’ML é importante começar por referir que o processo de desenvolvimento de um fármaco pressupõe tradicionalmente as seguintes fases: uma fase de investigação básica, na qual é desenvolvida uma ou várias moléculas com potencial terapêutico, uma fase pré-clínica, de testes de toxicidade e de determinação de dose, uma fase clínica, na qual se administra o fármaco em grupos de indivíduos selecionados, e, finalmente, se o fármaco se demonstrar seguro e eficaz, uma fase de aprovação e registo do mesmo. A Bn'ML integra a fase de testes pré-clínicos promovendo serviços de análise da eficácia dos potenciais compostos terapêuticos ao nível comportamental e molecular em modelos animais de doença”, esclarece a investigadora de 27 anos, que é ainda estudante de doutoramento em Neurociências. 
 
Os fatores diferenciais destes testes prendem-se com o “recurso a métodos de análise de ponta”, aliado ao “conhecimento científico gerado por equipas multidisciplinares com experiência internacionalmente reconhecida na área das neurociências”, acrescenta. O resultado é “uma avaliação mais eficaz dos efeitos terapêuticos dos compostos, sustentando o investimento associado à transição para a fase de testes clínicos, que é tipicamente a fase mais dispendiosa de todo o processo”, sustenta ainda empreendedora. 
 
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À conquista das farmacêuticas europeias
 
A Bn’ML ambiciona, pois, fomentar a investigação e desenvolvimento de fármacos com ação em doenças neuropsiquiátricas, encurtando e embaratecendo o processo. No que à concorrência diz respeito, impõe-se referir que a maioria das soluções equivalentes está nos EUA e não está focada nas doenças que movem a Bn’ML. Além de apostarem numa solução inexistente no mercado europeu, os cinco empreendedores garantem uma proposta de valor muito diferenciada da norte-americana. Os fatores competitivos apresentados sustentam-se numa economia de custos ímpar e também num conjunto de recursos e técnicas de análise celular e molecular avançadas e inovadoras. 
 
“A aposta na proximidade física com o cliente também nos demarca dos nossos concorrentes americanos”, justifica Patrícia Patrício, que justifica assim o facto de, nesta fase inicial, a empresa estar voltada apenas para os mercados europeus. “Portugal continua a ser uma importante plataforma de contactos e negócios, no qual nos queremos estabelecer como parceiros importantes da indústria e de grupos de investigação. Não descuramos, no entanto, outros mercados eventualmente menos óbvios, mas que com algum tempo teremos oportunidade de explorar”, diz ainda a empreendedora natural de Braga. 
 
Continuamente em investigação, a equipa da Bn’ML prevê em breve patentear novas soluções e reconhece que os projetos futuros passam necessariamente por aí. O objetivo será conquistar um posicionamento de “parceiro chave da indústria farmacêutica”. “A longo prazo, podemos ainda equacionar a possibilidade de nos tornarmos nós próprios intervenientes no processo de desenvolvimento de novas moléculas com ação terapêutica para doenças do foro psiquiátrico e neurológico”, acrescenta Patrícia Patrício.  
 

Perfil

A ideia de negócio surgiu no âmbito dos trabalhos desenvolvidos, desde 2006, por uma equipa cinco investigadores do Instituto Investigação de Ciências da Vida e da Saúde da Universidade do Minho (ICVS). Além das atividades e responsabilidades que continuam a assumir neste centro de investigação, os elementos que compõem a equipa Bn’ML distinguem-se por um dinâmico e especializado currículo académico e profissional.
 
Nuno Sousa, 44 anos, natural do Porto, Professor catedrático na Escola de Ciências da Saúde (ECS) na Universidade do Minho (UM), Médico Neurorradiologista, doutorado em Neurociências pela Universidade do Porto, diretor do curso de medicina da ECS da UM, diretor do Centro Clínico Académico em Braga e coordenador do domínio de Neurociências do ICVS, da UM. 
 
Luísa Pinto, 32 anos, natural de Braga, Investigadora Auxiliar e Professora Convidada Equiparado a Professora Auxiliar na ECS, licenciada em Bioquímica pela Universidade de Coimbra, Doutorada em Neurociências pela Universidade Ludwig Maximilians, em Munique, Alemanha. 
 
Patrícia Patrício, 27 anos, natural de Braga, licenciada em Biologia Aplicada pela UM, Mestre em Genética Molecular e Biomedicina pela Faculdade de Ciências e Tecnologia da Universidade Nova de Lisboa e estudante de doutoramento em Neurociências na ECS-UM. 
 
António Pinheiro, 25 anos, natural de Lisboa, licenciado em Biologia Aplicada pela UM, Mestre em Neurociências pela ECS-UM e estudante de doutoramento em Neurociências na ECS-UM.
 
João Bessa, 36 anos, natural de Braga, licenciado em Medicina pela Faculdade de Medicina da Universidade do Porto, médico especialista em Psiquiatria no Departamento de Psiquiatria e Saúde Mental do Hospital de Braga, professor auxiliar na ECS-UM, doutorado em neurociências pela Universidade do Minho.

 

 
14.11.2013